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domingo, 23 de novembro de 2014

Por uma nova política para o audiovisual

23 de novembro de 2014 | 11:11 Autor: Miguel do Rosário
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Mudando um pouco de assunto, eu gostaria de partilhar algumas reflexões sobre a indústria do audiovisual.
É um bom momento para falar nisso, sobretudo após a Globo lembrar que a Petrobrás tem reduzido o financiamento a filmes brasileiros.
Mesmo com todas as críticas duras que faço ao jornalismo da Globo, eu sempre isentei as suas novelas.
As novelas, não, eu dizia a mim mesmo e a meus colegas.
A Globo é uma magnífica produtora de novelas, eu defendia.
Continuei afirmando isso inclusive muito tempo depois de ter parado de assisti-las, como fazia, meio esporadicamente, com a família, na minha infância e adolescência – e uma ou outra, depois.
Nos últimos anos, porém, aconteceram algumas coisas que vem mudando radicalmente a cultura audiovisual do brasileiro. E a minha também.
Primeiro, chegaram as tvs fechadas, e suas dezenas de canais de filme.
Com a generosidade dos assinantes do blog, que me permitiram melhorar de vida, passei a assinar todos os canais disponíveis no Brasil.
O lado ruim é que meus ambiciosos objetivos de aquisição de cultura literária ficaram um tanto prejudicados (alguns adiados por tempo indeterminado), com a concorrência desleal por meu tempo livre imposta por tantos novos canais.
O lado bom é que parei, definitivamente, de assistir aos canais abertos.
E passei a ter uma noção bem maior do impressionante grau de breguice das novelas da Globo.
Aí chegou a Netflix, com a sua espetacular cartela de séries.
Devorei com sofreguidão House of Cards e Homeland.
Agora estou assistindo The Killing, que se passa em Seattle.
E outras, que não cabe aqui repetir.
Não sou nenhum esquerdista anti-EUA, como se vê.
Admiro e consumo, sem culpa, a literatura e o cinema do império.
O problema dos EUA, para mim, é sua indústria bélica e a mania de intervir em outros países.
Se o imperialismo se limitasse a exportar coca-cola, starbucks, hamburguers, filmes e séries, para mim tudo bem.
O problema de Roma nunca foram os poemas de Virgílio, e sim a obsessão de aniquilar outros povos e outras culturas.
Entretanto, após assistir tantas séries, e contemplar a extraordinária diversidade de temas abordados, passei a ver as novelas da Globo de uma outra forma.
Também nisso, temos que melhorar muito.
Nossa indústria de ficção audiovisual, onde a Globo reina soberana, de repente passa a ser percebida como imensamente pobre e monocórdica.
Sempre os mesmos atores, os mesmos diretores, os mesmos criadores, alternando-se o tempo inteiro.
Os temas também são os mesmos.
Não há diversidade.
Alguns canais fechados tentaram fazer séries, mas usando atores e autores da Globo.
A mesma linguagem, os mesmos tabus, os mesmos vícios.
Como há uma concentração absurda do mercado, não se construiu uma saudável segmentação do público.
Ou seja, também nisso, a Globo mostrou-se nociva.
Nos EUA, a indústria do audiovisual é regulamentada por sindicatos extremamente fortes, que protegem roteiristas, atores e técnicos.
Aqui, não.
Os atores estão expostos à lei da selva, onde o mais forte – no caso, a Globo – tem poder de vida e morte sobre milhares de profissionais.
Você nunca viu nenhuma reportagem sobre os poderosos sindicatos da indústria norte-americana de entretenimento, certo?
Por que a Globo e outros canais morrem de medo de que haja algo parecido aqui.
Aqui, atores e autores são considerados quase escravos.
Escravos de luxo, pagos regiamente, mas escravos.
A cultura, a política, a diversidade, as virtudes e os vícios dos brasileiros não são refletidos em nossa produção audiovisual.
Talvez este seja o principal mal causado pela concentração da mídia brasileira.
A política, quando é abordada, inclusive nos filmes, é sempre de maneira maniqueísta, leviana, superficial.
Todavia, temos um país poderosamente integrado ao sistema audiovisual.
Todo mundo possui TV em casa, mesmo nos rincões mais afastados do país.
Na era Lula, houve ainda troca por aparelhos melhores e instalação de parabólicas no interior.
Em virtude desta capilaridade fantástica, o potencial cultural da TV, em termos de produção de símbolos para a massa, é infinito.
Além disso, o povo brasileiro, à diferença do norte-americano e europeu, não passou pela cultura literária.
Houve um salto direto de um país com mais de 60% de analfabetismo, nos anos 60, para um país com 99% dos lares com TV, hoje.
Isso deve ser usado para o bem do povo.
Através da TV, pode-se dar lições de saúde, ensinar valores democráticos, proporcionar aulas de história, produzir lazer.
Sem esquecer que a indústria do entretenimento gera milhões de empregos e proporciona riqueza.
Só não gera empregos se tivermos poucos canais, ou um só canal, produzindo.
A indústria do entretenimento é hoje a segunda maior geradora de divisas para os EUA. Só perde para a exportação de armas.
Então, presidenta, não adianta se preocupar apenas com a indústria de transformação.
Tem de se preocupar igualmente com a indústria de entretenimento, até porque um maior desenvolvimento desta nos daria mais independência política e cultural.
O Brasil, como potência regional, deve isso à América Latina e ao mundo emergente em geral. Se eles consomem as novelas da Globo, consumiriam dez vezes mais se tivéssemos uma produção segmentada, com dezenas de séries produzidas por ano.
Isso poderia gerar divisas para o país, e ao mesmo tempo abrir espaço para nossos interesses comerciais e políticos, assim como faz a indústria americana para os interesses norte-americanos.
Claro que a arte só é possível num ambiente de liberdade e autonomia de criação.
O monopólio e o oligopólio da mídia matam a criatividade.
Este é um tema que o novo governo poderia trazer ao debate.


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